{"id":693,"date":"2022-11-09T14:06:49","date_gmt":"2022-11-09T13:06:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/?page_id=693"},"modified":"2024-08-16T11:29:45","modified_gmt":"2024-08-16T09:29:45","slug":"noite-dos-vidros-quebrados-recordando-atraves-de-testemunhas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/pt\/noite-dos-vidros-quebrados-recordando-atraves-de-testemunhas\/","title":{"rendered":"Noite dos Vidros Quebrados \u2013 recordando atrav\u00e9s de testemunhas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Margot Lemle z\u2019l<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante aquela terr\u00edvel noite de 9 de novembro, est\u00e1vamos muito tensos com as not\u00edcias sobre o que estava acontecendo. Sab\u00edamos que meu marido, bem como todos os judeus de Frankfurt, corria grande perigo. Quando a campainha tocou \u00e0s 7 da manh\u00e3 da manh\u00e3 seguinte, ficamos estarrecidos: dois homens da SS, em roupas civis, de armas na m\u00e3o, entraram gritando: \u201cApronte-se, r\u00e1pido! S\u00f3 vai poder levar uma mala de roupa! Revistaram todo o apartamento. Alfred, sentado na caminha dele, perguntou: \u201cVoc\u00eas trouxeram um presente pra mim?\u201d Um dos nazistas, que parecia ser um pouco mais humano, me disse em voz baixa: \u201cLamento muito!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ernesto Bach z\u2019l<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o posso dizer exatamente como que chegou at\u00e9 a Kristallnacht. Eu tinha estado fora de Berlim. Durante uns poucos meses eu fui aprendiz de um of\u00edcio pr\u00e1tico numa cidadezinha na Sax\u00f4nia. Como todo mundo achava que a maioria dos alem\u00e3es s\u00f3 eram acad\u00eamicos, eu fui ent\u00e3o aprender alguma coisa, trabalhar em tear. Mas a f\u00e1brica, que era de judeus conhecidos da minha m\u00e3e, tinha que ser arianizada tamb\u00e9m, e eu, poucos dias antes da Noite dos Cristais, tinha voltado para Berlim. Os policiais procuraram os homens e sabiam onde ach\u00e1-los, porque todo mundo, n\u00e3o s\u00f3 os judeus, tinha que se registrar na pol\u00edcia. E eles sabiam onde tinha judeus homens. Ent\u00e3o, quando chegou assim o fim da tarde, voc\u00ea via na rua os homens andando com mochilas, cobertores, indo para alguma casa onde s\u00f3 moravam mulheres, para dormir l\u00e1, porque l\u00e1 n\u00e3o seriam procurados. Eu tamb\u00e9m fiz isso. Eu ainda n\u00e3o havia me registrado de volta em Berlim, da\u00ed a pol\u00edcia n\u00e3o sabia que eu estava l\u00e1. Mas aquela noite, eu me lembro muito bem: eu fui \u00e0 rua e vi o pessoal quebrar vitrines, vi a sinagoga em chamas. N\u00e3o quis muito chamar aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o. Eles tinham antes agido com uma maldade incr\u00edvel: mandaram todos os judeus, donos das lojas, pintar em letras grandes na vitrine o nome do dono. Ent\u00e3o, todo mundo j\u00e1 sabia logo onde quebrar as vitrines.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Josef Aronsohn z\u2019l<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s t\u00ednhamos loja e tudo, at\u00e9 esse dia. Quebraram a loja, quebraram os grandes vidros da loja. Gente da cidade, populares, malandros. No dia seguinte, 10 de novembro, eu fui, como habitualmente, para Gleiwitz, para as aulas no Semin\u00e1rio para Cantor. Quando voltei, eles me prenderam. Prenderam todos os judeus: nos levaram para o campo de concentra\u00e7\u00e3o, em Buchenwald. Eu fiquei l\u00e1 seis semanas, at\u00e9 16 de dezembro. Eu fui muito maltratado. Eles me feriram com uma espingarda a m\u00e3o esquerda. Eu n\u00e3o podia escrever nada depois do campo. Depois escrevi com a m\u00e3o direita, com ajuda. Foi muito dif\u00edcil. Depois de duas ou tr\u00eas semanas, n\u00f3s pod\u00edamos escrever uma carta para casa. A carta era pr\u00e9-formulada: \u201cEu estou no campo de concentra\u00e7\u00e3o, me sinto bem, n\u00e3o falta nada.\u201d Todas com o mesmo texto. Quando essa carta chegou em casa, meu av\u00f4, o pai da minha m\u00e3e, que vivia com eles, disse: &#171;Rosa, por que voc\u00ea chora? Voc\u00ea v\u00ea, ele tem tudo. Ele vai bem, n\u00e3o \u00e9?&#187; S\u00f3 fui liberado depois que assinei uma ordem que ia deixar a Alemanha. Pensei, \u201ceu vou organizar uma oportunidade para emigrar.\u201d Mas quando voltei do campo de concentra\u00e7\u00e3o, logo me ofereceram um emprego como cantor, em Gleiwitz. Eu aceitei e depois eu me casei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Hans Wilmersdorfer z\u2019l<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 noite quebraram todas as lojas de judeus. As duas sinagogas de Munique desapareceram. A sinagoga ortodoxa, nessa noite, foi incendiada. A outra sinagoga j\u00e1 tinham derrubado antes, para fazer uma pra\u00e7a. Invadiram tamb\u00e9m resid\u00eancias de judeus, bateram neles. Mas isso foi o in\u00edcio de uma persegui\u00e7\u00e3o \u00f3bvia. Antes, j\u00e1 tinham proibido os judeus de praticar Medicina e Direito. Os teatros j\u00e1 estavam fechados para n\u00f3s. Em 1938, eu percebi e meu pai tamb\u00e9m que era o fim. E t\u00ednhamos que sair o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, se ainda houvesse possibilidade. Se n\u00e3o tivesse sido a mam\u00e3e, o papai n\u00e3o teria deixado a Alemanha. Ele n\u00e3o conseguia imaginar que chegaria a esse ponto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu fui preso na loja que n\u00f3s ainda t\u00ednhamos. A pol\u00edcia me levou para \u00e0 delegacia e depois fomos de caminh\u00e3o para Dachau. O papai fez a burrice de ir para a delegacia procurar por mim e levar uma malinha com roupas. Naturalmente, n\u00e3o podia levar roupas de jeito nenhum. E o papai, nessa ocasi\u00e3o, tamb\u00e9m foi preso. Embora ele tivesse 60 e poucos anos e s\u00f3 eram presos judeus at\u00e9 sessenta anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa Noite dos Cristais n\u00e3o foi um evento espont\u00e2neo. J\u00e1 estava tudo preparado. Porque os barrac\u00f5es para n\u00f3s estavam prontos em Dachau. Eu calculo que \u00e9ramos uns oito a nove mil. Um campo enorme de grande. Todo dia, um ou outro morria. Mais por doen\u00e7a, mais por stress do que por causa de brutalidades, que tamb\u00e9m tinha. Pouca comida. Muita pouca comida. E um regime est\u00fapido. S\u00f3 para torturar a gente. O povo alem\u00e3o sabia de campos de concentra\u00e7\u00e3o, claro!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margot Lemle z\u2019l Durante aquela terr\u00edvel noite de 9 de novembro, est\u00e1vamos muito tensos com as not\u00edcias sobre o que estava acontecendo. 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