{"id":200,"date":"2020-12-28T01:22:29","date_gmt":"2020-12-28T00:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/?p=200"},"modified":"2024-08-18T20:58:28","modified_gmt":"2024-08-18T18:58:28","slug":"meu-amigo-o-rabino-dr-henrique-lemle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/pt\/posts\/meu-amigo-o-rabino-dr-henrique-lemle\/","title":{"rendered":"Meu amigo, o rabino Dr. Henrique Lemle"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o conheci Dr. Lemle. Eu tinha oito anos quando ele faleceu em 1978, e minha fam\u00edlia n\u00e3o frequentava a sinagoga da ARI. Era aluno de um col\u00e9gio comunista, aprendia i\u00eddish na escola, frequentava o Shomer Hatzair. Conhecia as hist\u00f3rias da B\u00edblia como relatos hist\u00f3ricos e acontecimentos folcl\u00f3ricos. As festas eram oportunidades de reunir a fam\u00edlia e comer os quitutes de receitas herdadas de um passado remoto na Europa Oriental. Deus ou religi\u00e3o nunca foram um grande tema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas Dr. Lemle \u2013 assim teria me dirigido a ele, como todos os que gozaram da sua conviv\u00eancia \u2013 mudou minha vida! Ter acesso \u00e0 filosofia e aos ideais do Juda\u00edsmo reformista atrav\u00e9s de seus l\u00edderes espirituais e laicos, dos congregantes e das atividades, ao me aproximar da ARI na d\u00e9cada de 1980, me encantou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O legado de Lemle \u2013 assim o chamo na minha intimidade de pesquisa \u2013 transcende seus contempor\u00e2neos e suas gera\u00e7\u00f5es. Aprision\u00e1-lo nos seus anos de vida ou exclusivamente na sua atua\u00e7\u00e3o rab\u00ednica seria um equ\u00edvoco irrepar\u00e1vel para a hist\u00f3ria da presen\u00e7a dos judeus no Brasil e reduziria o seu papel no Juda\u00edsmo hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vida de Lemle n\u00e3o deve ser relatada como um fio cont\u00ednuo de sofrimento; o sofrimento \u00e9 inerente \u00e0s situa\u00e7\u00f5es pelas quais ele e muitos de seus contempor\u00e2neos passaram \u2013 segrega\u00e7\u00e3o, aprisionamento, ex\u00edlio. Mas cada etapa de sua vida sedimenta um est\u00e1gio de sua vis\u00e3o, que ele incessantemente transformou em miss\u00e3o. A ARI \u00e9 express\u00e3o concreta de sua vis\u00e3o comunit\u00e1ria e congregacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um documento do in\u00edcio de 1972, Lemle aborda os temas da liturgia como foram institu\u00eddos na funda\u00e7\u00e3o da ARI na d\u00e9cada de 1940, que por sua vez eram heran\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o do Juda\u00edsmo reformista alem\u00e3o. Lemle, entretanto, corrobora os ajustes que foram feitos ao longo dos anos porque \u201ca situa\u00e7\u00e3o da vida moderna trouxe problemas t\u00e9cnicos com rela\u00e7\u00e3o a certas determina\u00e7\u00f5es da tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos podemos enganar sobre o fato de que a grande maioria de nossos congregantes usam condu\u00e7\u00e3o em Shabat. A nossa orienta\u00e7\u00e3o ficou assim determinada: tudo que contribuir \u00e0 verdadeira beleza do Shabat, Oneg Shabat, ter\u00e1 que ser admitido.\u201d E enfatiza, \u201cn\u00f3s n\u00e3o temos outra orienta\u00e7\u00e3o sen\u00e3o esta: o que nos inspire para Kidush Hachaim, a santifica\u00e7\u00e3o da vida, a santifica\u00e7\u00e3o de nossos sentimentos e a santifica\u00e7\u00e3o de nosso relacionamento com os outros \u2013 este \u00e9 o dia do Shabat. E assim conseguimos tamb\u00e9m aquilo que parece ao ser humano moderno t\u00e3o dif\u00edcil, o relacionamento mais pessoal com aquilo que \u00e9 a Ordem Suprema, com o Ser Supremo, com Deus.\u201d Essa postura contundente \u00e9 o que torna t\u00e3o natural e indiscut\u00edvel, nestes tempos desafiadores de pandemia, congregarmo-nos atrav\u00e9s das tecnologias dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>A nossa orienta\u00e7\u00e3o ficou assim determinada: tudo que contribuir \u00e0 verdadeira beleza do Shabat, Oneg Shabat, ter\u00e1 que ser admitido<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lemle nasceu em 30 de outubro de 1909. No seu pequeno vilarejo Fischach, no sul da Alemanha, Lemle presenciava a chegada dos prestamistas e caixeiros viajantes judeus da Europa Oriental falando i\u00eddish e trazendo bugigangas e muitas not\u00edcias e novidades, n\u00e3o as de jornais, mas as sociais: listas de mo\u00e7as solteiras, ofertas e demandas, falecimentos, os bastidores. Em um universo de aproximadamente 500 mil judeus alem\u00e3es, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930 havia cerca de 50 mil judeus poloneses vivendo em territ\u00f3rio alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao chegar ao Brasil em dezembro de 1940, Lemle se deparou com uma comunidade judaica ashkenazi predominantemente da Europa Oriental: poloneses, russos, lituanos. Agora eram esses a maioria! Ele fez disso um incentivo \u00e0 sua miss\u00e3o e n\u00e3o um obst\u00e1culo: aprendeu i\u00eddish! Concentrou seu trabalho na propaga\u00e7\u00e3o da mensagem do Juda\u00edsmo liberal, com acolhimento de novos grupos de origem, e menos nas separa\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas. Al\u00e9m de fortes la\u00e7os de amizade com judeus do Leste europeu, foi tamb\u00e9m entre os judeus marroquinos e portugueses, j\u00e1 estabelecidos e integrados, que Lemle encontrou os interlocutores com seu pa\u00eds de ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu livro O Drama Judaico, de 1944, definido \u00e0 \u00e9poca como o primeiro livro escrito no Brasil por um judeu sobre os judeus, Lemle manifesta gratid\u00e3o: \u201cJ\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, florescem, no Centro e no Norte do pa\u00eds, congrega\u00e7\u00f5es de brasileiros israelitas, imperturbados na observa\u00e7\u00e3o da sua religi\u00e3o. Estes filhos do Brasil alcan\u00e7aram posi\u00e7\u00f5es respeitadas na sociedade e na economia brasileiras, ao mesmo tempo que se destacaram por sua lealdade \u00e0 f\u00e9 israelita. Fizeram, desta maneira vis\u00edvel, mais um tra\u00e7o do car\u00e1ter verdadeiramente democr\u00e1tico deste pa\u00eds; a fidelidade \u00e0 religi\u00e3o judaica n\u00e3o os impediu em nada de serem classificados entre os filhos mais patri\u00f3ticos do Brasil.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lemle casou-se em maio de 1934 com sua prima, Margot Rosenfeld \u2013 as m\u00e3es eram irm\u00e3s. O pai de Margot pode ter sido uma das duas primeiras v\u00edtimas fatais do regime nacional-socialista. Em mar\u00e7o de 1933, quatro jovens foram espancados em Creglingen, dois deles morreram. Segundo o Prof. Dr. Rupp da Universidade de W\u00fcrzburg, se \u201chouvesse uma lista de nomes dos mais de seis milh\u00f5es de judeus assassinados, Hermann Stern e Arnold Rosenfeld figurariam no topo como as primeiras v\u00edtimas da Sho\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lemle foi investido como rabino no p\u00falpito da comunidade de Mannheim, em 1\u02da de abril de 1933. Ningu\u00e9m poderia ter previsto, ao marcar a data festiva da sua posse, que este seria um dia tr\u00e1gico para os judeus na Alemanha: o dia do boicote aos consult\u00f3rios, escrit\u00f3rios e estabelecimentos de judeus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua atua\u00e7\u00e3o em Mannheim foi brilhante e not\u00f3ria. O jovem Rabino Dr. Heinrich Lemle, como ainda se chamava antes de mudar para Henrique no Brasil, descreve em um curr\u00edculo de 1938: \u201calguns meses depois visitou-me o Rabino Dr. Caesar Seligmann e me convidou, em nome da Diretoria da comunidade de Frankfurt, a vir para essa grande e tradicional comunidade como rabino. Foi-me oferecida a oportunidade de experimentar algo inusitado. Eu deveria atuar diretamente com jovens como o primeiro Rabino para a Juventude. A juventude judaica daquela \u00e9poca vivia o seu ser judeu como um empecilho para todos os seus planos de futuro.\u201d Ele assume o p\u00falpito como Rabino para a Juventude em Frankfurt, em junho de 1934.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lemle lista entre seus afazeres, \u201caulas, aconselhamento, planejamento profissional, lideran\u00e7a dos grupos juvenis e de escoteiros, aconselhamento para emigra\u00e7\u00e3o, aconselhamento para pais e cursos para m\u00e3es.\u201d Por tr\u00e1s desta lista de tarefas est\u00e1 a mais dif\u00edcil de sua carreira: al\u00e9m de seu trabalho no p\u00falpito e nas aulas, Lemle precisava aconselhar fam\u00edlias a se separarem, pais a abrirem m\u00e3o de seus filhos e deix\u00e1-los ir como \u00fanica forma de salv\u00e1-los, jovens a abandonarem os sonhos de uma carreira profissional ou acad\u00eamica nas renomadas universidades alem\u00e3es e um futuro de t\u00edtulos e honras, para aprenderem a manejar tratores e trabalhar a terra para uma poss\u00edvel imigra\u00e7\u00e3o para a Palestina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>\u00c0s vezes desejo poder ouvir suas palavras: aqui, sem d\u00favida, extremamente necess\u00e1rias<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O empenho de Lemle n\u00e3o foi em v\u00e3o. Al\u00e9m do \u00eaxito vivenciado pessoalmente na ARI at\u00e9 seu falecimento em 1978, ele pode recolher ao longo da vida provas reais de sua obra. Em mar\u00e7o de 1945 \u00e9 publicada, no Boletim da ARI, uma carta [aqui resumida] que recebeu de um soldado diretamente da frente de combate:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuerido Dr. Lemle: O Sr. ficar\u00e1 surpreso ao ter not\u00edcias da frente ocidental e n\u00e3o creio que se lembre imediatamente de mim. Frequentei o seu curso de Bar Mitsv\u00e1, em 1937. H\u00e1 pouco, li sobre o Sr. no \u201cAufbau\u201d [jornal sobre sobreviventes e exilados]. Vejo que o Sr. continua, no Brasil, uma atividade que h\u00e1 tanto tempo come\u00e7ou. \u00c0s vezes desejo poder ouvir suas palavras: aqui, sem d\u00favida, extremamente necess\u00e1rias. Em 1943, me alistei no Ex\u00e9rcito Americano. Estava ansioso por entrar em combate e obtive bastante do que queria, quando desembarquei nas praias da Normandia logo ap\u00f3s a invas\u00e3o. Aprendi a viver num buraco, sempre \u00e0 sombra da morte, cujos olhos duros eu fitei mais de uma vez. A guerra \u00e9 uma coisa horr\u00edvel; aprendi a odi\u00e1-la e mais ainda os nazistas por causa dela. Cordialmente, Private Fred Karfiol\u201d. Fred morreu nos Estados Unidos, aos 66 anos, em dezembro de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que impulso formid\u00e1vel esse jovem soldado prestou ao \u00e2nimo de Lemle e aos associados leitores dos boletins! Sobretudo nos anos em que o destino do povo judeu ainda estava incerto e os exilados s\u00f3 tinham acesso a not\u00edcias esparsas e desesperadas atrav\u00e9s daqueles que aqui conseguiram aportar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1935, com a promulga\u00e7\u00e3o das leis racistas na Alemanha, o cerco se fechava. O espa\u00e7o de conviv\u00eancia, ou at\u00e9 mesmo de sobreviv\u00eancia social dos judeus, era estrangulado gradativamente com proibi\u00e7\u00f5es, segrega\u00e7\u00e3o e censura. Para o judeu alem\u00e3o que tinha uma vida cotidiana integrada, um cidad\u00e3o que se orgulhara ou talvez ainda se orgulhasse de pertencer \u00e0quela grande na\u00e7\u00e3o, a mensagem era clara: voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um de n\u00f3s. Voc\u00ea \u00e9 der Jude, o judeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos dirigentes das comunidades judaicas nos seus \u00faltimos estertores, administrando um contingente sob o choque das novas circunst\u00e2ncias e, em especial, aos que trabalhavam com a juventude, aquela era uma \u00e9poca de atua\u00e7\u00e3o igualmente austera e sens\u00edvel. O trabalho de Lemle com a juventude na e da ARI, seu rigor absoluto com a oferta de atividades e a inclus\u00e3o dos jovens nas esferas de lideran\u00e7a comunit\u00e1ria n\u00e3o eram apenas um valor judaico da continuidade, do grande elo das gera\u00e7\u00f5es. Era uma quest\u00e3o s\u00e9ria de sobreviv\u00eancia. Naquele momento na Alemanha, os jovens eram a \u00faltima chance de salvar o Juda\u00edsmo europeu e, para isso, deveriam ser enviados para o futuro como numa c\u00e1psula do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do atletismo judaico e do esporte em Frankfurt am Main \u00e9 interessante porque nela se espelha uma \u00e9poca de extrema resist\u00eancia e profundos problemas, que foram superados de forma bem-sucedida atrav\u00e9s de empenho pessoal e determina\u00e7\u00e3o\u201d, relembra Richard Blum em 1977 em seu livro sobre o grupo Bar-Kochba, uma agremia\u00e7\u00e3o atl\u00e9tica do Macabi da Alemanha. N\u00e3o resta d\u00favida que Lemle estava entre esses homens e mulheres que se empenharam pessoalmente. E assim como nos anos de 1934 e 1935, a comunidade judaica de Frankfurt realizou seus pr\u00f3prios jogos ol\u00edmpicos em 1936. Desta vez, com especial significado, pois dava aos desprezados do esporte nacional a chance de se exibir e disputar. Em nota que relatou sobre este grande evento no Boletim da comunidade de Frankfurt de janeiro de 1937 l\u00ea-se: \u201cDurante a entrada dos atletas para a abertura dos terceiros Jogos Atl\u00e9ticos Internacionais Macabeus no hip\u00f3dromo de Frankfurt em 29 de novembro de 1936, o Rabino Dr. Lemle enfatizou em seu discurso que as palavras, em hebraico, para Aufmarsch e Aufruf t\u00eam a mesma raiz. Assim, surge da energia vital e vibrante uma for\u00e7a de congra\u00e7amento.\u201c Tudo me leva a crer que estas duas palavras, Aufmarsch \u2013 que aqui significa desfile \u2013 e Aufruf \u2013 chamamento, convoca\u00e7\u00e3o \u2013, pelo uso do prefixo Auf, que em alem\u00e3o indica movimento ascendente, referiam-se \u00e0 palavra hebraica ali\u00e1, usada para imigra\u00e7\u00e3o para Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais cedo em 1936, em 12 de janeiro, no necrol\u00f3gio a um membro da comunidade de Frankfurt, Hermann Schwarz, no novo cemit\u00e9rio judaico da cidade, Lemle j\u00e1 divulga a ideia da imigra\u00e7\u00e3o, de fazer ali\u00e1, sem usar as palavras imigra\u00e7\u00e3o, Palestina, Israel ou outras relacionadas ao tema. Era uma \u00e9poca de extrema observa\u00e7\u00e3o e suspei\u00e7\u00e3o. Ele ressalta em seu discurso: \u201cTr\u00e1gico nos parece que, em sua hora derradeira, seus filhos est\u00e3o distantes naquela outra terra e l\u00e1 choram por ele. Talvez amenize um pouco a trag\u00e9dia saber que para ele houve a \u00faltima e aut\u00eantica alegria judaica que pais de fam\u00edlia podem vivenciar. Enquanto aqui ele sofria em sua \u00faltima esta\u00e7\u00e3o de dor, enquanto aqui preocupa\u00e7\u00f5es amargas o consumiam \u2013 estava sendo fundada l\u00e1, na outra terra, uma nova vida, um novo futuro para seus filhos, no qual ele mesmo vai sobreviver. A \u00faltima carta de l\u00e1 pode ter sido o motivo de sua \u00faltima alegria na vida. Assim, constroem-se pontes de l\u00e1 para c\u00e1, da terra da vida e da terra do futuro das novas gera\u00e7\u00f5es at\u00e9 o lugar de descanso eterno do pai imortalizado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1937 \u00e9 conhecido como um ano relativamente calmo, sem grandes efem\u00e9rides por parte do governo nacional-socialista. As leis racistas j\u00e1 haviam sido implantadas em 1935, os jogos ol\u00edmpicos de 1936 j\u00e1 haviam exposto ao mundo os tra\u00e7os de car\u00e1ter do governo hitlerista. Aos olhos da hist\u00f3ria, 1937 foi um ano de acomoda\u00e7\u00e3o e adensamento: a infraestrutura da guerra vinha sendo implantada longe dos olhos da opini\u00e3o p\u00fablica, a ideologia nacional-socialista era condensada e quem podia, ainda, tratava de ir embora. Ou n\u00e3o! O governo n\u00e3o deixava muito claro quais seriam os pr\u00f3ximos passos. As grandes pot\u00eancias mundiais ainda tinham uma cren\u00e7a ing\u00eanua ou uma pol\u00edtica de olhar para o outro lado, e ignoraram com consci\u00eancia ou cautela as movimenta\u00e7\u00f5es dentro do Reich.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Margot Lemle relata em suas mem\u00f3rias sobre uma visita do casal \u00e0 Palestina em 1937, para sondar a possibilidade de estabelecer-se l\u00e1. Duas refer\u00eancias a esta visita \u00e0 Palestina foram publicadas no boletim da comunidade de Frankfurt: uma palestra em dezembro de 1937 e outra em janeiro de 1938. Aqui Lemle, aos 28 anos, j\u00e1 se revela um vision\u00e1rio e n\u00e3o um mero observador: \u201ca apresenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da noite foi feita pelo Rabino Dr. H. Lemle sobre Pobre Terra Prometida?, em que ele chega \u00e0 conclus\u00e3o de que, na Palestina, reencontramos de forma concentrada e exacerbada todos os conflitos e problemas da Europa e da Am\u00e9rica. S\u00e3o as mesmas doen\u00e7as e choques que todos vivenciam. A Palestina n\u00e3o \u00e9 uma pobre Terra Prometida, mas muito mais uma terra de contrastes, de contrastes acirrados, uma terra de encontros e de s\u00ednteses.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Em pouco tempo ele havia conquistado jovens e adultos, com sua voz suave e simp\u00e1tica, com palavras de sabedoria, confian\u00e7a e entusiasmo<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na brochura de 1979 Em Mem\u00f3ria ao Gr\u00e3o-Rabino Dr. Henrique Lemle, o publicista Ernesto Strauss revela uma lembran\u00e7a de sua inf\u00e2ncia: \u201cMeu irm\u00e3o e eu est\u00e1vamos sentados nos degraus de m\u00e1rmore da majestosa sinagoga de Frankfurt, que todo Erev Shabat ficava lotada. Entre os rabinos havia uma grande atra\u00e7\u00e3o, o rec\u00e9m-contratado Rabino Dr. Lemle z\u2019l, no in\u00edcio de sua carreira, como Rabino para a Juventude. Em pouco tempo ele havia conquistado jovens e adultos, com sua voz suave e simp\u00e1tica, com palavras de sabedoria, confian\u00e7a e entusiasmo, sempre dentro daquilo que o tempo de ent\u00e3o permitia. Uma destas sextas-feiras ficou gravada em nossa mem\u00f3ria de meninos de aproximadamente 10 anos. O Rabino Lemle havia retornado de uma viagem a Israel. Com entusiasmo, ele rejubilava com a visita \u00e0 Terra Prometida. Israel seria a solu\u00e7\u00e3o para toda a desgra\u00e7a que j\u00e1 se delineava aos remanescentes [na Alemanha]. Seu esp\u00edrito chalutsiano [pioneiro] de proximidade com Israel, que manteve ali\u00e1s por toda a vida, tornou-se aos silenciosos ouvintes uma luz de esperan\u00e7a nas trevas da perspectiva nazista, que apresentava sombras cada vez mais obscuras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa mesma brochura, Austreg\u00e9silo de Athayde despede-se do amigo Rabino, exaltando que \u201cos seus livros, as suas pr\u00e9dicas, os seus ensinamentos, pela palavra e pelo exemplo, consagram uma figura excepcional, que deve ser recolhida na hist\u00f3ria do Juda\u00edsmo como uma manifesta\u00e7\u00e3o da Presen\u00e7a Divina em nossos tempos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto as palavras de Austreg\u00e9silo de Athayde como as de Ernesto Strauss confirmam o compromisso existencial de Lemle com sua nova p\u00e1tria, o Brasil, e seu comprometimento transcendental com sua p\u00e1tria ancestral, Israel. Talvez a rela\u00e7\u00e3o de Lemle com os profetas v\u00e1 al\u00e9m da admira\u00e7\u00e3o, qui\u00e7\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o \u2013 profetas v\u00eam luz na escurid\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o conheci Dr. Lemle. Eu tinha oito anos quando ele faleceu em 1978, e minha fam\u00edlia n\u00e3o frequentava a sinagoga da ARI. Era aluno de um col\u00e9gio comunista, aprendia i\u00eddish na escola, frequentava o Shomer Hatzair. Conhecia as hist\u00f3rias da B\u00edblia como relatos hist\u00f3ricos e acontecimentos folcl\u00f3ricos. As festas eram oportunidades de reunir a fam\u00edlia e comer os quitutes de receitas herdadas de um passado remoto na Europa Oriental. Deus ou religi\u00e3o nunca foram um grande tema. Mas Dr. Lemle \u2013 assim teria me dirigido a ele, como todos os que gozaram da sua conviv\u00eancia \u2013 mudou minha vida! Ter acesso \u00e0 filosofia e aos ideais do Juda\u00edsmo reformista atrav\u00e9s de seus l\u00edderes espirituais e laicos, dos congregantes e das atividades, ao me aproximar da ARI na d\u00e9cada de 1980, me encantou. 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