{"id":359,"date":"2018-11-09T01:43:28","date_gmt":"2018-11-09T00:43:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/?p=359"},"modified":"2024-08-16T13:51:26","modified_gmt":"2024-08-16T11:51:26","slug":"por-que-recordar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/pt\/posts\/por-que-recordar\/","title":{"rendered":"Quando o horror se transforma em terror"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Reichspogromnacht, tamb\u00e9m denominada ingenuamente de Kristallnacht \u2013 A Noite dos Cristais \u2013, marca para os judeus alem\u00e3es a transforma\u00e7\u00e3o do horror em terror e o in\u00edcio da viol\u00eancia f\u00edsica ostensiva e sistem\u00e1tica. At\u00e9 ent\u00e3o, a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus acontecia geralmente pela forma da coer\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o atrav\u00e9s de leis racistas e segregacionistas. A partir da\u00ed, a integridade f\u00edsica da popula\u00e7\u00e3o judaica fica oficialmente amea\u00e7ada, e tanto o desejo quanto a necessidade de emigra\u00e7\u00e3o atingem seu grau de desespero: a corrida para fora da Alemanha torna-se uma quest\u00e3o urgente de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta noite simboliza o fim do Juda\u00edsmo alem\u00e3o, como se conhecia at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 sinagogas s\u00e3o queimadas, milhares de homens judeus s\u00e3o presos e levados para campos de concentra\u00e7\u00e3o, seus recursos para sobreviv\u00eancia s\u00e3o extintos, seu meio social \u00e9 suprimido. Aqueles que podem, por conhecimento ou possibilidade financeira, refugiam-se em pa\u00edses pr\u00f3ximos ou distantes, como o Brasil. Os que ficam s\u00e3o testemunhas da institucionaliza\u00e7\u00e3o da ideologia antissemita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta noite, que marca os 80 anos daquela noite de terror, nos faz refletir sobre o abismo estreito entre ficar e partir, entre o poder da identidade nacional e o abandono das estruturas familiares, entre o perene desejo humano pela perman\u00eancia e a imposi\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as. \u00c0 medida que o regime nacional- socialista constringia os judeus \u00e0 conviv\u00eancia isolada da sociedade alem\u00e3, observa-se, em contraponto, uma reconex\u00e3o com a identidade comunit\u00e1ria e a consolida\u00e7\u00e3o de valores judaicos talvez j\u00e1 outrora abandonados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os associados da ARI s\u00e3o hoje, por nascimento ou legado ideol\u00f3gico, os herdeiros hist\u00f3ricos e respons\u00e1veis pela recorda\u00e7\u00e3o do 9 de novembro. A ARI existe como Congrega\u00e7\u00e3o Liberal no Rio de Janeiro por ter o regime nacional-socialista estabelecido as leis de discrimina\u00e7\u00e3o e racismo na Alemanha, e oficializado o terror com o fat\u00eddico pogrom (persegui\u00e7\u00e3o virulenta brutal, espont\u00e2nea ou organizada) daquela noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Figura exemplar deste per\u00edodo \u00e9 o Rabino-Fundador da ARI, Dr. Henrique Lemle. Como outros milhares de homens judeus, Lemle foi preso e deportado para o campo de concentra\u00e7\u00e3o de Buchenwald no dia seguinte \u00e0 Reichspogromnacht. Em suas Mem\u00f3rias, sua esposa Margot escreve que \u201co projeto de emigrar para o Brasil j\u00e1 estava em fase bem adiantada quando, no dia 10 de novembro de 1938, \u00e0s 7 horas da manh\u00e3, o Rabino Heinrich Lemle foi levado pelos homens da Gestapo de seu apartamento na Miquelstrasse 3, 1o andar, para a Festhalle de Frankfurt\u201d, um grande edif\u00edcio de reuni\u00e3o para feiras e festas, onde cerca de 3.000 homens judeus foram detidos para interrogat\u00f3rio e deporta\u00e7\u00e3o para campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A insipiente comunidade de judeus alem\u00e3es da Capital Federal do Brasil teria que esperar. A ARI foi a \u00faltima congrega\u00e7\u00e3o jeke (denomin\u00e7\u00e3o dada aos judeus alem\u00e3es) a ser fundada no Brasil: a primeira foi a SIBRA, no Rio Grande do Sul, em 1934, seguida da CIP, em S\u00e3o Paulo, em 1936. Ap\u00f3s ex\u00edlio de dois anos na Inglaterra, Lemle pode emigrar para o Brasil em dezembro de 1940 para liderar a funda\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Religiosa Israelita, em 1942.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Preocupa\u00e7\u00f5es similares<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os dias 11 e 14 de outubro de 1942, reuniram-se em S\u00e3o Paulo os dois rabinos das duas congrega\u00e7\u00f5es liberais alem\u00e3es pr\u00f3ximas: da Congrega\u00e7\u00e3o Israelita Paulista, Rabino Dr. Prof. Fritz Pinkuss, e da ARI, Rabino Dr. Henrique Lemle. A proximidade entre Lemle e Pinkuss ia al\u00e9m de seu ex\u00edlio no Brasil, refugiados do regime hitlerista. Ambos foram detidos em Buchenwald ap\u00f3s o pogrom de 9 de novembro e tinham sido estudantes no Semin\u00e1rio Rab\u00ednico em Breslau, hoje Wroclaw na Pol\u00f4nia. Lemle usou, como uma fonte para sua tese de doutorado na Universidade de W\u00fcrzburg em 1932 \u201cMendelssohn e a toler\u00e2ncia\u201d, um trabalho anterior do Rabino Dr. Pinkuss de 1929 intitulado \u201cA rela\u00e7\u00e3o de Mendelssohn com a filosofia inglesa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa reuni\u00e3o decidiu-se as linhas mestras de funcionamento conjunto entre as duas institui\u00e7\u00f5es irm\u00e3s. O terceiro item da ata da reuni\u00e3o declara que \u201cpor ocasi\u00e3o do dia 9 de novembro ambas Congrega\u00e7\u00f5es celebrar\u00e3o neste ano um servi\u00e7o especial comemorativo na manh\u00e3 do dia 8 de novembro. Em ambas Sinagogas ser\u00e1 lido o manifesto dos dois Rabinos. Tamb\u00e9m nos anos vindouros continuar\u00e1 a promo\u00e7\u00e3o destes servi\u00e7os.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale lembrar que, em 1942, a guerra e o regime nacional-socialista estavam em seu auge. Lemle e Pinkuss, assim como seus correligion\u00e1rios, estavam conscientes do iminente perigo e o que isso poderia ter como efeito na vida no ex\u00edlio, onde muitos n\u00e3o tinham conhecimento pleno do destino de familiares que ainda estavam na Europa ou mesmo do pr\u00f3prio destino na nova terra. Ainda em fevereiro de 1942, o escritor austr\u00edaco Stefan Zweig e sua esposa Lotte tiraram a pr\u00f3pria vida em sua casa em Petr\u00f3polis, em um gesto derradeiro de desesperan\u00e7a com o futuro nublado pela expans\u00e3o do regime hitlerista e sua brutalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por essas raz\u00f5es e agora j\u00e1 mais familiarizados com a vida judaica no Brasil, mas acostumados com a organiza\u00e7\u00e3o da comunidade judaica na Alemanha, Lemle e Pinkuss recomendam, no item 15 da ata desta reuni\u00e3o, \u201ca funda\u00e7\u00e3o de uma federa\u00e7\u00e3o das congrega\u00e7\u00f5es israelitas do Brasil com o fim de satisfazer as tarefas espirituais, culturais, organizat\u00f3rias e de representa\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m de l\u00edder irrestrito dos associados da ARI, Lemle foi um vision\u00e1rio e um importante articulador da exist\u00eancia plena dos judeus no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"720\" data-src=\"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/sogenannte_polenaktion_1938_sfvv-1024x720.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-372 size-full lazyload\" data-srcset=\"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/sogenannte_polenaktion_1938_sfvv-1024x720.jpg 1024w, https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/sogenannte_polenaktion_1938_sfvv-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/sogenannte_polenaktion_1938_sfvv-768x540.jpg 768w, https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/sogenannte_polenaktion_1938_sfvv.jpg 1080w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/720;\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desnorteados e assustados, muitos tentavam voltar \u00e0 Alemanha, presos entre as pol\u00edcias de fronteira alem\u00e3 e polonesa<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Opera\u00e7\u00e3o Pol\u00f4nia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pogrom de 9 de novembro tem liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a popula\u00e7\u00e3o de judeus poloneses no territ\u00f3rio do Deutsches Reich, que se estendia do rio Reno, no Oeste, at\u00e9 regi\u00f5es que hoje se encontram no territ\u00f3rio polon\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, milhares de judeus poloneses migraram para a Alemanha e a \u00c1ustria em busca de uma vida melhor, e na esperan\u00e7a de escapar da pobreza e do antissemitismo no Leste europeu. Em 1938, havia aproximadamente 50.000 judeus poloneses na Alemanha e 20.000 na \u00c1ustria. Ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria em mar\u00e7o de 1938, o governo polon\u00eas temeu um retorno em massa de seus cidad\u00e3os judeus que viviam no exterior e promulgou uma lei que afetava os passaportes de poloneses que viviam fora do pa\u00eds h\u00e1 mais de cinco anos. Os cidad\u00e3os deveriam obter um selo especial de endosso em seus passaportes at\u00e9 30 de outubro de 1938, um domingo, para mant\u00ea-los v\u00e1lidos. A falta do selo significava a perda da cidadania polonesa e, em consequ\u00eancia, o fechamento das fronteiras do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 27 de outubro, quinta-feira, o governo alem\u00e3o decretou a deporta\u00e7\u00e3o desses judeus \u201cap\u00e1tridas\u201d. Durante essa Polenaktion (Opera\u00e7\u00e3o Pol\u00f4nia), 17.000 judeus poloneses foram detidos e deportados por trem ou a p\u00e9 at\u00e9 a fronteira da Alemanha com a Pol\u00f4nia. Em muitos casos, o governo deportou apenas homens, pois acreditava que as mulheres e as crian\u00e7as encontrariam uma maneira de se unir a seus maridos e pais. Ao longo do caminho, muitos pereceram v\u00edtimas de terror ou doen\u00e7a; outros, em desespero, tiraram a pr\u00f3pria vida. Na fronteira, os deportados eram obrigados a entregar ao governo alem\u00e3o todas as suas posses, sendo-lhes permitido ficar com apenas dez Reichsmark.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apenas um primeiro pequeno grupo foi admitido na Pol\u00f4nia, os demais foram recusados pelos guardas de fronteira poloneses. Desnorteados e assustados, muitos tentavam voltar \u00e0 Alemanha, presos entre as pol\u00edcias de fronteira alem\u00e3 e polonesa. Quando finalmente o governo polon\u00eas permitiu sua entrada, os judeus foram alojados em v\u00e1rias cidades fronteiri\u00e7as em uma bizarra \u201cterra de ningu\u00e9m\u201d. Alimentos e cuidados m\u00e9dicos eram escassos. Milhares de judeus deslocados buscaram abrigo em est\u00e1bulos e celeiros. Organiza\u00e7\u00f5es judaicas na Pol\u00f4nia montaram campos de refugiados enquanto o governo polon\u00eas tentava fazer com que a Alemanha recolhesse de volta os judeus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em novembro de 1938, a Pol\u00f4nia deferiu a perman\u00eancia dos judeus poloneses. At\u00e9 agosto de 1939, todos j\u00e1 haviam partido das cidades fronteiri\u00e7as. E em 1o de setembro, a Alemanha invadiu a Pol\u00f4nia. Come\u00e7ava ent\u00e3o a Segunda Guerra Mundial.<br>O governo nacional-socialista afirmava que o pogrom de 9 de novembro foi uma retalia\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3, indignada pelo assassinato de um diplomata alem\u00e3o em Paris por Herschel Grynszpan, jovem judeu polon\u00eas que morava em Paris, que alegou ter agido para protestar contra a Polenaktion e a deporta\u00e7\u00e3o de seus pais para a Pol\u00f4nia.<br>A Opera\u00e7\u00e3o Pol\u00f4nia de outubro foi t\u00e3o significativa quanto as bombas incendi\u00e1rias de novembro. Pode- se afirmar que essa opera\u00e7\u00e3o foi um precursor de deten\u00e7\u00f5es s\u00fabitas, persegui\u00e7\u00f5es, deporta\u00e7\u00f5es, viol\u00eancia e confisco de propriedades.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Judenstempel<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em contraste com o ano de 1937, considerado um ano silencioso acerca da persegui\u00e7\u00e3o virulenta a judeus e discreto em rela\u00e7\u00e3o a movimentos de prepara\u00e7\u00e3o para uma guerra, 1938 foi barulhento e contundente, em especial no que diz respeito \u00e0s resolu\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica externa alem\u00e3 com seus pa\u00edses vizinhos. Neste ano, muitos pa\u00edses deixaram claro, em acordo ou n\u00e3o com a Alemanha, que judeus n\u00e3o eram bem-vindos em seus territ\u00f3rios para transitar ou se exilar.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:35% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/P1030385-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-374 size-full lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/576;\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">em 5 de outubro de 1938, o governo alem\u00e3o introduziu o Judenstempel \u2013 uma letra J vermelha carimbada em passaportes alem\u00e3es que identificava o titular como judeu.<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferente de outros pa\u00edses europeus, na Alemanha a integra\u00e7\u00e3o secular dos judeus com a popula\u00e7\u00e3o e cultura local e, historicamente falando, a proximidade lingu\u00edstica foram, em diferentes \u00e9pocas e por diferentes motivos, b\u00ean\u00e7\u00e3o e maldi\u00e7\u00e3o \u2013 Ashkenaz significa, em hebraico, Alemanha; o idioma \u00eddish nasceu como um socialeto naquela regi\u00e3o, antes mesmo de existir o pr\u00f3prio pa\u00eds Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 17 de agosto de 1938, o governo alem\u00e3o obrigou seus cidad\u00e3os judeus a incluir, em seus nomes pr\u00f3prios, um nome esteriotipicamente judaico para distingu\u00ed-los: os homens deveriam incluir Israel e as mulheres, Sara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais tarde, em 5 de outubro de 1938, o governo alem\u00e3o introduziu o Judenstempel \u2013 uma letra J vermelha carimbada em passaportes alem\u00e3es que identificava o titular como judeu. Em 7 de julho de 1941, tamb\u00e9m as capas dos passaportes viriam a ser carimbadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com estas medidas, judeus alem\u00e3es eram facilmente identificados nos postos de fronteira. H\u00e1 estudos que sugerem a participa\u00e7\u00e3o das autoridades su\u00ed\u00e7as nesta decis\u00e3o que, dada sua neutralidade e estabilidade pol\u00edtica, era privilegiada como pa\u00eds de ex\u00edlio ou tr\u00e2nsito. Com o J ficava a cargo do pa\u00eds receptor permitir a entrada do prov\u00e1vel turista. A Su\u00ed\u00e7a condicionou a entrada de judeus alem\u00e3es \u00e0 emiss\u00e3o de visto pr\u00e9vio pela representa\u00e7\u00e3o su\u00ed\u00e7a competente no pa\u00eds de origem ou resid\u00eancia. Al\u00e9m dos judeus alem\u00e3es, essa medida atingia indiretamente os poloneses afetados pela Polenaktion e outros judeus que tentavam imigrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inven\u00e7\u00e3o do Judenstempel foi atribu\u00edda inicialmente ao chefe da pol\u00edcia de fronteira su\u00ed\u00e7a. No entanto, estudos recentes atestam que o carimbo foi de fato introduzido em comum acordo entre Su\u00ed\u00e7a e Alemanha, a partir de uma contraproposta das autoridades alem\u00e3s \u00e0 exig\u00eancia, pelo Conselho Federal Su\u00ed\u00e7o, de visto para todos os seus cidad\u00e3os indiscriminadamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1938, sobretudo na Reichspogromnacht, o cerco se fechou. Ficar deixa de ser uma alternativa, partir passa a ser um privil\u00e9gio. Nos seis anos seguintes, o mundo ser\u00e1 testemunha de um dos maiores crimes da e contra a humanidade. No Rio de Janeiro, o som das colheres batendo em tampas de panelas na Pra\u00e7a Onze em 8 de maio de 1945 vai celebrar o fim deste pesadelo. E dez anos mais tarde, em 14 de maio de 1948, o mundo vai assistir uma na\u00e7\u00e3o retomar a soberania sobre seu pr\u00f3prio destino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Reichspogromnacht, tamb\u00e9m denominada ingenuamente de Kristallnacht \u2013 A Noite dos Cristais \u2013, marca para os judeus alem\u00e3es a transforma\u00e7\u00e3o do horror em terror e o in\u00edcio da viol\u00eancia f\u00edsica ostensiva e sistem\u00e1tica. At\u00e9 ent\u00e3o, a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus acontecia geralmente pela forma da coer\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o atrav\u00e9s de leis racistas e segregacionistas. A partir da\u00ed, a integridade f\u00edsica da popula\u00e7\u00e3o judaica fica oficialmente amea\u00e7ada, e tanto o desejo quanto a necessidade de emigra\u00e7\u00e3o atingem seu grau de desespero: a corrida para fora da Alemanha torna-se uma quest\u00e3o urgente de sobreviv\u00eancia. Esta noite simboliza o fim do Juda\u00edsmo alem\u00e3o, como se conhecia at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 sinagogas s\u00e3o queimadas, milhares de homens judeus s\u00e3o presos e levados para campos de concentra\u00e7\u00e3o, seus recursos para sobreviv\u00eancia s\u00e3o extintos, seu meio social \u00e9 suprimido. Aqueles que podem, por conhecimento ou possibilidade financeira, refugiam-se em pa\u00edses pr\u00f3ximos ou distantes, como o Brasil. 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