{"id":511,"date":"2022-12-22T09:56:26","date_gmt":"2022-12-22T08:56:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/?p=511"},"modified":"2024-08-18T18:10:16","modified_gmt":"2024-08-18T16:10:16","slug":"integrity-and-integration-marks-of-the-presence-of-jews-in-brazilian-society","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/pt\/posts\/integrity-and-integration-marks-of-the-presence-of-jews-in-brazilian-society\/","title":{"rendered":"Integridade e integra\u00e7\u00e3o: judeus na sociedade brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Significativos, ainda que imprecisos, s\u00e3o os anos da presen\u00e7a judaica no Brasil. Eles podem variar de acordo com a contagem escolhida: se desde o per\u00edodo das Grandes Navega\u00e7\u00f5es, ou por conta da Inquisi\u00e7\u00e3o na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, ou da imigra\u00e7\u00e3o marroquina, ou em virtude das persegui\u00e7\u00f5es czarista, nazista, comunista\u2026 ou de quando partiram em busca de um futuro pr\u00f3spero e seguro para si e seus descendentes. Judeus, que sempre se movimentaram pelo Velho Mundo, tamb\u00e9m encontraram seus caminhos para o Novo Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a dos judeus no Brasil foi muitas vezes indesejada e, de certo modo, invalidada, por quest\u00f5es alheias \u00e0 forma com que pragmaticamente se relacionaram com o Pa\u00eds: criando seus filhos, aprendendo o idioma, incorporando h\u00e1bitos, fundando institui\u00e7\u00f5es para o bem comum e empresas, viabilizando o presente e semeando o futuro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do escritor judeu austr\u00edaco Stefan Zweig (Viena, 1881\u2013 Petr\u00f3polis, 1942) \u00e9 a express\u00e3o \u201cBrasil, Pa\u00eds do futuro\u201d. Zweig via na miscigena\u00e7\u00e3o das ra\u00e7as e etnias no Brasil o caminho da toler\u00e2ncia e integra\u00e7\u00e3o que inaugurariam uma nova era de conviv\u00eancia humana. No Brasil e, em especial, na cidade do Rio de Janeiro nos s\u00e9culos XIX e XX, podemos atribuir a fluida integra\u00e7\u00e3o do imigrante judeu \u00e0 multietnicidade de seus indiv\u00edduos, \u00e0 horizontalidade de suas rela\u00e7\u00f5es pessoais e institucionais, sem um poder central, e \u00e0 sua resili\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Judaica, cole\u00e7\u00e3o que testemunha a Hist\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os imigrantes judeus das diferentes \u00e9pocas trouxeram consigo n\u00e3o somente as particularidades de sua pr\u00e1tica religiosa e os usos e costumes de seus pa\u00edses de origem, mas tamb\u00e9m um conjunto de documentos, livros e objetos com os quais deram continuidade \u00e0s suas vidas judaicas. Esses objetos de uso ritual ou cotidiano, ligados intrinsicamente \u00e0 sua observ\u00e2ncia da religi\u00e3o ou dos mandamentos alimentares ou comportamentais, constituem uma cole\u00e7\u00e3o denominada \u201cJudaica\u201d e podem estar ou ser usados na sinagoga ou no lar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na tradi\u00e7\u00e3o judaica, os elementos simb\u00f3licos, comest\u00edveis ou n\u00e3o, e os objetos confeccionados para cont\u00ea-los, preserv\u00e1-los ou apresent\u00e1-los s\u00e3o desprovidos de santidade em si e servem como instrumentos para a santifica\u00e7\u00e3o da Cria\u00e7\u00e3o Divina. Os objetos de Judaica, como casti\u00e7ais, copos, recipientes para especiarias, candelabros, s\u00e3o como tal categorizados tanto por terem inscri\u00e7\u00f5es em hebraico ou no idioma da regi\u00e3o de sua fabrica\u00e7\u00e3o, relativas a um evento religioso ou do ciclo da vida, quanto, na aus\u00eancia de tais caracter\u00edsticas, por sua proveni\u00eancia ou hist\u00f3rico de pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em maio de 2022, o Museu Hist\u00f3rico Nacional recebeu da Associa\u00e7\u00e3o Religiosa Israelita do Rio de Janeiro (ARI), fundada em 1942 por refugiados judeus alem\u00e3es do regime nazista, a doa\u00e7\u00e3o de um \u201cporta-etrog\u201d: objeto de Judaica usado para acomodar o&nbsp;<em>etrog<\/em>&nbsp;(fruta da cidra amarela), um dos elementos simb\u00f3licos da festividade de&nbsp;<em>Sukot<\/em>, a festa das cabanas. O&nbsp;Museu Hist\u00f3rico Nacional \u00e9 hoje um dos primeiros museus sobre a hist\u00f3ria nacional de um pa\u00eds fora de Israel, qui\u00e7\u00e1 o primeiro, a incluir&nbsp;a imigra\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a dos judeus&nbsp;em seu acervo e programa institucional. Museus judaicos registram e exp\u00f5em a imigra\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a judaicas em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo. Contudo, os museus sobre a hist\u00f3ria nacional n\u00e3o incluem a hist\u00f3ria dos judeus daquele pa\u00eds em sua narrativa ou exposi\u00e7\u00e3o. A entrada do porta-etrog no acervo do Museu retrata a inser\u00e7\u00e3o da comunidade judaica no Brasil e celebra a forma hospitaleira com a qual os judeus foram recebidos no Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Etrog, a fruta que sintetiza a integridade do car\u00e1ter<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Provavelmente origin\u00e1rio do sudeste asi\u00e1tico, o&nbsp;<em>etrog<\/em>&nbsp;(Citrus medica) espalhou-se pela P\u00e9rsia e pela Mesopot\u00e2mia at\u00e9 a regi\u00e3o do Mediterr\u00e2neo. Entre os s\u00e9culos II e III chega \u00e0 regi\u00e3o de Cal\u00e1bria, na It\u00e1lia, como a primeira fruta c\u00edtrica no continente europeu, possivelmente trazida do Oriente M\u00e9dio por judeus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fruta \u00e9 grande, claramente assim\u00e9trica na base, e sua casca, de um amarelo intenso e brilhante, \u00e9 excepcionalmente irregular para uma fruta c\u00edtrica. As caracter\u00edsticas do etrog exigidas para o uso ritual s\u00e3o muitas: A fruta deve apresentar um bot\u00e3o de flor na extremidade e sua casca deve ser lisa, sem rugas e sem manchas, e n\u00e3o apresentar machucado; e deve ser colhida de \u00e1rvore saud\u00e1vel e que n\u00e3o tenha sido cruzada com uma planta c\u00edtrica convencional. Al\u00e9m disso, a fruta n\u00e3o deve ser redonda, nem muito el\u00edptica, e grande suficiente para preencher a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O&nbsp;<em>etrog<\/em>&nbsp;\u00e9 usado simbolicamente na liturgia da festa de&nbsp;<em>Sukot<\/em>, que recorda as tendas\/cabanas (<em>sukot<\/em>, em hebraico) que os israelitas constru\u00edram e habitaram no deserto do Sinai ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o do Egito (\u00caxodo). Nessa festa, quatro esp\u00e9cies vegetais simbolizam, por seu sabor e\/ou aroma ou pela aus\u00eancia deles, a diversidade dos indiv\u00edduos que formam a comunidade judaica. Uma dessas esp\u00e9cies \u00e9 o etrog que, por ter tanto aroma como sabor, \u00e9 associado \u00e0 plenitude e \u00e0 integridade de car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para salvaguardar a fruta durante os oito dias da festa, foram e ainda s\u00e3o fabricados ou adaptados recipientes, seguindo o estilo est\u00e9tico da \u00e9poca e lugar onde a comunidade judaica est\u00e1 estabelecida. De prata prensada, repuxada e cinzelada com motivos florais, o porta-etrog do Museu Hist\u00f3rico Nacional \u00e9 provavelmente de meados do s\u00e9culo XX e remete a um estilo est\u00e9tico usado desde o s\u00e9culo XIX pela Escola de Artes Bezalel, em Jerusal\u00e9m. O objeto traz inscri\u00e7\u00f5es em hebraico (Lev\u00edtico&nbsp;23:40: \u201cVoc\u00eas colher\u00e3o os frutos da \u00e1rvore da cidra amarela.\u201d) e em portugu\u00eas (\u201cNo quadrag\u00e9simo jubileu rab\u00ednico do Dr. Lemle. Dos cariocas em Israel \u00e0 ARI 1-4-1973\u201d), que explicitam seu uso e a ocasi\u00e3o em que foi dedicado \u00e0 Sinagoga.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Gr\u00e3o-Rabino Dr. Henrique Lemle<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rabino Dr. Lemle (Augsburg, 1909 \u2013 Rio de Janeiro, 1978) assumiu seu primeiro posto como rabino na sinagoga liberal de Mannheim no dia 1\u00ba de abril de 1933, dia do boicote a estabelecimentos comerciais e consult\u00f3rios m\u00e9dicos de judeus na Alemanha. Naquela ocasi\u00e3o, sua investidura ocorreu de forma discreta e sem a devida celebra\u00e7\u00e3o. Ao completar 40 anos de atua\u00e7\u00e3o rab\u00ednica em 1973, a ARI, congrega\u00e7\u00e3o da qual foi co-fundador e l\u00edder espiritual at\u00e9 sua morte, rendeu-lhe honrosas homenagens com servi\u00e7os religiosos festivos de<em>&nbsp;Shabat<\/em>, na sexta-feira \u00e0 noite e s\u00e1bado de manh\u00e3, ocasi\u00e3o na qual o porta-etrog foi dedicado \u00e0 Sinagoga em sua homenagem, e com a publica\u00e7\u00e3o de um boletim especial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dr. Lemle deixou marcas profundas na comunidade judaica brasileira e um legado valoroso para o Juda\u00edsmo mundial. Pertenceu \u00e0 \u00faltima gera\u00e7\u00e3o de rabinos contempor\u00e2neos a atuar na Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial e veio a tornar-se um dos mais influentes l\u00edderes espirituais dos judeus brasileiros. Em sua obra \u2018O Drama Judaico\u2019 de 1944, o Rabino Dr. Lemle manifesta gratid\u00e3o: \u201cJ\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, florescem, no centro e no norte do pa\u00eds, congrega\u00e7\u00f5es de brasileiros israelitas, imperturbados na observ\u00e2ncia de sua religi\u00e3o. Esses filhos do Brasil alcan\u00e7aram posi\u00e7\u00f5es respeitadas na sociedade e na economia brasileiras, ao mesmo tempo que se destacam por sua lealdade \u00e0 f\u00e9 israelita. Desta forma, tornaram vis\u00edvel mais um tra\u00e7o do car\u00e1ter verdadeiramente democr\u00e1tico deste pa\u00eds: a fidelidade \u00e0 religi\u00e3o judaica n\u00e3o os impediu de serem classificados entre os filhos mais patri\u00f3ticos do Brasil.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de ter sido for\u00e7a propulsora dentro da comunidade judaica carioca e brasileira, Rabino Dr. Lemle procurou intensamente o di\u00e1logo com entidades crist\u00e3s e outras inst\u00e2ncias da sociedade brasileira, para unidos se empenharem por uma conviv\u00eancia pac\u00edfica entre as religi\u00f5es e etnias, o que lhe foi reconhecido com a outorga do t\u00edtulo de Cidad\u00e3o Honor\u00e1rio da Cidade do Rio de Janeiro. Foi fundador da Fraternidade Judaico-Crist\u00e3, hoje Di\u00e1logo Inter-religioso e Inter\u00e9tnico, e implementou a c\u00e1tedra de L\u00edngua Hebraica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua morte em 1978 n\u00e3o encerrou sua obra abrangente, cujo efeito se perpetua como ensinamento de renova\u00e7\u00e3o, refer\u00eancia de conviv\u00eancia harmoniosa e exemplo de integra\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O novo s\u00e9culo imp\u00f5e desafios novos, mas tamb\u00e9m traz quest\u00f5es ran\u00e7osas que j\u00e1 deveriam ter sido superadas: antissemitismo, racismo, vis\u00f5es distorcidas sobre pessoas e povos. A vis\u00e3o de Stefan Zweig, a miss\u00e3o do Rabino Dr. Lemle e as vidas dos muitos imigrantes que fizeram do Brasil o seu lar, sintetizados nesse objeto representativo da tradi\u00e7\u00e3o judaica e da integra\u00e7\u00e3o ao Pa\u00eds, urgem ser traduzidas em a\u00e7\u00f5es para a retomada de um projeto perene, em que conhecimento e entendimento levam \u00e0 toler\u00e2ncia e \u00e0 boa conviv\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Significativos, ainda que imprecisos, s\u00e3o os anos da presen\u00e7a judaica no Brasil. Eles podem variar de acordo com a contagem escolhida: se desde o per\u00edodo das Grandes Navega\u00e7\u00f5es, ou por conta da Inquisi\u00e7\u00e3o na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, ou da imigra\u00e7\u00e3o marroquina, ou em virtude das persegui\u00e7\u00f5es czarista, nazista, comunista\u2026 ou de quando partiram em busca de um futuro pr\u00f3spero e seguro para si e seus descendentes. Judeus, que sempre se movimentaram pelo Velho Mundo, tamb\u00e9m encontraram seus caminhos para o Novo Mundo. A presen\u00e7a dos judeus no Brasil foi muitas vezes indesejada e, de certo modo, invalidada, por quest\u00f5es alheias \u00e0 forma com que pragmaticamente se relacionaram com o Pa\u00eds: criando seus filhos, aprendendo o idioma, incorporando h\u00e1bitos, fundando institui\u00e7\u00f5es para o bem comum e empresas, viabilizando o presente e semeando o futuro.&nbsp; Do escritor judeu austr\u00edaco Stefan Zweig (Viena, 1881\u2013 Petr\u00f3polis, 1942) \u00e9 a express\u00e3o \u201cBrasil, Pa\u00eds do futuro\u201d. 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