{"id":547,"date":"2022-08-11T18:10:50","date_gmt":"2022-08-11T16:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/?p=547"},"modified":"2024-08-16T10:09:36","modified_gmt":"2024-08-16T08:09:36","slug":"nachamu-nachamu-ami","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/pt\/posts\/nachamu-nachamu-ami\/","title":{"rendered":"A Tor\u00e1 carrega a coroa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNachamu, nachamu ami\u2026\u201d Ainda n\u00e3o esqueci essa melodia. \u00c9 da Haftar\u00e1 deste pr\u00f3ximo Shabat,&nbsp;<em>Shabat Nachamu<\/em>. O Shabat em que, h\u00e1 39 anos, eu celebrei o meu Bar Mitsv\u00e1. N\u00e3o precisam fazer muitas contas: fiz 52 \u2013 4 vezes Bar Mitsv\u00e1 essa semana. Essa melodia e essas tr\u00eas primeiras palavras de Isa\u00edas, que suplica que seu povo seja consolado pela trag\u00e9dia da destrui\u00e7\u00e3o do Templo, eu talvez jamais esque\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro de&nbsp;<em>Devarim<\/em>&nbsp;\u2013 palavras, as palavras que Mois\u00e9s dirigiu ao povo \u2013, a saga dos israelitas \u00e9 repetida, as leis de Deus s\u00e3o relembradas, ratificadas e estendidas, e nesta parash\u00e1 Vaet\u2019chanan o fundamento peculiar desta na\u00e7\u00e3o dentre os outros povos \u00e9 enfatizada: os israelitas t\u00eam um Deus \u00fanico e s\u00e3o, com esse Deus \u00fanico, parceiros na Cria\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis uns pelos outros e por tudo que habita a Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de um olhar hist\u00f3rico, a Tor\u00e1 hoje \u00e9 composta de cinco livros, mas possivelmente de quatro at\u00e9 que o livro de Devarim foi inclu\u00eddo. Comumente conhecida e publicada como a Lei de Mois\u00e9s, ela n\u00e3o \u00e9 de Mois\u00e9s! Mois\u00e9s foi, em sua grandeza e incans\u00e1vel disposi\u00e7\u00e3o e disponibilidade, aquele que uniu o povo deslocado na terra do Egito a Deus. Ele reconduziu os israelitas \u00e0 Terra Prometida. Mais do que isso, ele reconduziu os israelitas ao Deus \u00fanico e \u00e0 Sua Lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nada mais \u00f3bvio, conclusivo e imperativo que, quando o povo \u00e9 preparado para entrar, de fato, na Terra Prometida, segundo o texto b\u00edblico, que sejam as palavras de Mois\u00e9s que os inspirem, eduquem e os enquadrem. Hoje em dia, nada funciona melhor na internet do que um meme com uma frase de efeito assinada por um renomado autor ou, at\u00e9 mesmo, S\u00f3crates!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda a partir de uma perspectiva hist\u00f3rica, o livro de Devarim foi inclu\u00eddo aos outros quatro quando o povo mais precisava dele. E de educa\u00e7\u00e3o. Acredita-se que os israelitas estavam se desviando do conceito do Deus \u00fanico. E, sem esse conceito fundamental, o Juda\u00edsmo corria e corre risco. E Vaet\u2019chanan tem aqui um papel imprescind\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cShem\u00e1 Israel, Adonai Eloh\u00eainu, Adonai Echad\u201d,&nbsp;<\/em>lemos<em>&nbsp;<\/em>em Deuteron\u00f4mio cap\u00edtulo 6, vers\u00edculo 4. E o texto continua com o Ve\u2019ahavta, que nos \u00e9 t\u00e3o familiar. Gera\u00e7\u00f5es de judias e judeus aprendem e ensaiam esse trecho para seu grande momento na bim\u00e1. E n\u00f3s ouvimos e recitamos incansavelmente. Vers\u00edculo 5: \u201cVoc\u00ea amar\u00e1 o Eterno com toda a sua alma e com toda a sua for\u00e7a\u201d (Veahavta et Adon\u00e1i Eloh\u00eaicha bechol-levavch\u00e1 uvechol-nafsh\u00eacha uvechol-meod\u00eacha). Vers\u00edculo 6: \u201cLeve ao cora\u00e7\u00e3o estas instru\u00e7\u00f5es\/palavras que Eu lhe ordeno hoje.\u201d (Vehai\u00fa hadvarim ha\u00eale asher anoch\u00ed metsavch\u00e1 haiom al-levav\u00eacha). E o 7: \u201cGrave-as sobre seus filhos. Recite-as quando estiver em casa e quando estiver fora, ao se deitar e ao se levantar.\u201d (Veshinantam levan\u00eacha vedibarta bam beshivtech\u00e1 bebeit\u00eacha uvelechtech\u00e1 vad\u00earech uveshochbech\u00e1 uvekum\u00eacha)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gravar, cunhar, deixar marcado \u2013 Veshinantam! A repeti\u00e7\u00e3o e a transmiss\u00e3o da Tor\u00e1 s\u00e3o fundamentais para a na\u00e7\u00e3o israelita. \u00c9 o que fazemos hoje, no nosso Minian das Quintas, e toda vez que nos reunimos, recitamos, lemos da Tor\u00e1, ensinamos, aprendemos. \u00c9 ela nossa fonte de conhecimento fundamental do Juda\u00edsmo, das hist\u00f3rias centrais, das festividades e dos valores. \u00c9 a Tor\u00e1, entre n\u00f3s, que carrega a Coroa!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No seriado \u201cThe Crown\u201d (A Coroa) sobre a hist\u00f3ria e ascens\u00e3o da Rainha Elizabeth II ao trono da Inglaterra, ela resolve uma quest\u00e3o pr\u00e1tica no in\u00edcio do seu reinado, ainda bem jovem, apelando a um ensinamento que havia aprendido em suas aulas de prepara\u00e7\u00e3o na adolesc\u00eancia para assumir como monarca. (Elizabeth II tamb\u00e9m teve aulas de Bat Mitsv\u00e1, no seu caso, o estudo da Constitui\u00e7\u00e3o Inglesa.) Ela anotou em um caderno um conceito filos\u00f3fico b\u00e1sico de Walter Bagehot, descrito em seu livro \u201cA Constitui\u00e7\u00e3o Inglesa\u201d, de 1867. Esse conceito postula que uma constitui\u00e7\u00e3o precisa de dois parceiros, \u201cum para instigar e preservar a rever\u00eancia da na\u00e7\u00e3o\u201d (o digno) e o outro para \u201cempregar essa rever\u00eancia no trabalho do governo\u201d (o eficiente). O monarca, ela a Rainha, que porta a Coroa, \u00e9 o parceiro digno, e o gabinete de governo, o parceiro eficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa Lei, a Tor\u00e1, carrega a Coroa, ela \u00e9 nossa parceira dignificada. E n\u00f3s, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, sem hierarquia, sem privil\u00e9gios, somos o parceiro eficiente. E como o parceiro eficiente, aquele que, nesse mundo, executa a Lei de Deus, revisitamos o texto ao longo de nossas vidas \u2013 de Simchat Tor\u00e1 a Simchat Tor\u00e1 \u2013 e, infinitamente, ao longo das gera\u00e7\u00f5es. Essa leitura infinita da Tor\u00e1, na minha opini\u00e3o, \u00e9 um exerc\u00edcio incessante de extra\u00e7\u00e3o de seu cerne, de sua parte mais visceral e essencial.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Essa leitura infinita da Tor\u00e1, na minha opini\u00e3o, \u00e9 um exerc\u00edcio incessante de extra\u00e7\u00e3o de seu cerne, de sua parte mais visceral e essencial.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Asher Gulak, historiador de origem lituana da Lei judaica, tornou-se um dos fundadores da moderna disciplina da lei judaica na Universidade Hebraica de Jerusal\u00e9m. Gulak atribu\u00eda a sobreviv\u00eancia da lei judaica ao longo dos tempos, mesmo na aus\u00eancia de um governo judaico organizado, aos \u201cfundamentos de f\u00e9 e justi\u00e7a sobre os quais ela \u00e9 estabelecida\u201d. Gulak comenta a conex\u00e3o especial que os judeus tra\u00e7am entre lei e \u00e9tica. Para Gulak, a lei \u00e9 principalmente promulgada e aplicada por um soberano que usa o poder, ou \u201csan\u00e7\u00e3o externa\u201d. Nessa vis\u00e3o, seguimos as leis, mesmo quando n\u00e3o o fazemos de todo o cora\u00e7\u00e3o, porque elas s\u00e3o aplicadas. Por outro lado, a a\u00e7\u00e3o \u00e9tica reflete o que&nbsp;deveser feito e \u00e9 impulsionada pela compuls\u00e3o interna, e n\u00e3o pela for\u00e7a externa. Gulak sugere que uma das distin\u00e7\u00f5es da lei judaica \u00e9 o sentido de que tanto a lei quanto a \u00e9tica judaicas se originam na mesma fonte. Ele escreve: \u201cO direito [judaico] n\u00e3o deriva da soberania ou do governo, e seu valor central n\u00e3o \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o de um regime ou governo.\u201d Segundo ele, \u201cisso explica por que a lei judaica concerne&nbsp;muito mais&nbsp;os indiv\u00edduos e a justi\u00e7a de suas a\u00e7\u00f5es, do que a governan\u00e7a social e sua institui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na hist\u00f3ria moderna, o Juda\u00edsmo Reformista trouxe uma perspectiva diferente, mas n\u00e3o inusitada, \u00e0 lei judaica. Em momentos anteriores ou concomitantes ao surgimento da Reforma h\u00e1 mais de 200 anos, tamb\u00e9m outros movimentos, correntes, manifesta\u00e7\u00f5es carism\u00e1ticas, rabinos, conselhos rab\u00ednicos j\u00e1 vinham re-tecendo os fios delicados da aplica\u00e7\u00e3o da lei judaica \u2013 da&nbsp;<em>halach\u00e1<\/em>&nbsp;\u2013 em tratados, comp\u00eandios, responsas e interpreta\u00e7\u00f5es. (De fato, \u00e9 o que fazemos desde que a Lei foi aceita por n\u00f3s.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mim me encanta que o Juda\u00edsmo Reformista reconhece e reafirma que a Tor\u00e1 \u00e9 o princ\u00edpio unit\u00e1rio da lei, mas n\u00e3o ignora o fato de que m\u00e3os humanas moldaram a Tor\u00e1 e que a contribui\u00e7\u00e3o humana foi feita no seu desenvolvimento. \u00c0 luz dessa perspectiva, o Juda\u00edsmo Reformista distingue entre leis variadas e d\u00e1 prioridade \u00e0s normas morais do que \u00e0s demandas rituais. Ainda assim, a Reforma sempre considera suas pr\u00e1ticas e perspectivas pautadas pela injun\u00e7\u00e3o b\u00edblica: tudo o que fazemos deve ser justo, pois a justi\u00e7a \u00e9 a vontade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me preparando para essa reflex\u00e3o, aprendi mais um pouco sobre a minha pr\u00f3pria parash\u00e1. Mas constato que, de certa forma, eu e as gera\u00e7\u00f5es que me antecederam fomos gravados, cunhados pelas palavras, por Devarim. E me pergunto, se n\u00f3s aqui, quando estudamos, escutamos ou falamos, se estamos levando apenas um colorido novo para o dia, para o fim de semana, ou nos deixamos cunhar \u2013&nbsp;<em>veshinantam<\/em>&nbsp;\u2013 pela ess\u00eancia de uma vida \u00e9tica, cujas leis podem e devem ser renovadas, re-tecidas e adequadas \u00e0 vida contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNachamu, nachamu ami\u2026\u201d Ainda n\u00e3o esqueci essa melodia. \u00c9 da Haftar\u00e1 deste pr\u00f3ximo Shabat,&nbsp;Shabat Nachamu. O Shabat em que, h\u00e1 39 anos, eu celebrei o meu Bar Mitsv\u00e1. N\u00e3o precisam fazer muitas contas: fiz 52 \u2013 4 vezes Bar Mitsv\u00e1 essa semana. Essa melodia e essas tr\u00eas primeiras palavras de Isa\u00edas, que suplica que seu povo seja consolado pela trag\u00e9dia da destrui\u00e7\u00e3o do Templo, eu talvez jamais esque\u00e7a.&nbsp; No livro de&nbsp;Devarim&nbsp;\u2013 palavras, as palavras que Mois\u00e9s dirigiu ao povo \u2013, a saga dos israelitas \u00e9 repetida, as leis de Deus s\u00e3o relembradas, ratificadas e estendidas, e nesta parash\u00e1 Vaet\u2019chanan o fundamento peculiar desta na\u00e7\u00e3o dentre os outros povos \u00e9 enfatizada: os israelitas t\u00eam um Deus \u00fanico e s\u00e3o, com esse Deus \u00fanico, parceiros na Cria\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis uns pelos outros e por tudo que habita a Terra. 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