{"id":996,"date":"2024-08-27T15:51:23","date_gmt":"2024-08-27T13:51:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/?p=996"},"modified":"2024-08-27T15:53:52","modified_gmt":"2024-08-27T13:53:52","slug":"damas-voces-dao-a-essa-comunidade-um-valor-transcendental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.heritageandhistory.ch\/site\/pt\/posts\/damas-voces-dao-a-essa-comunidade-um-valor-transcendental\/","title":{"rendered":"100 anos de hist\u00f3ria, alguns mil\u00eanios de Mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agrade\u00e7o ter sido convidado a dizer algumas palavras nessa comemora\u00e7\u00e3o t\u00e3o significativa para a comunidade judaica carioca, para a comunidade judaica brasileira, mas tamb\u00e9m e em especial para o Brasil, o pa\u00eds que acolheu meus av\u00f3s e muitos dos antepassados daqueles que est\u00e3o aqui hoje celebrando. Ou at\u00e9 mesmo aqueles que est\u00e3o aqui hoje celebrando!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha juventude, trabalhei como pesquisador no Projeto Heran\u00e7as e Lembran\u00e7as \u2013 imigrantes judeus no Rio de Janeiro. Durante quase quatro anos, a pesquisa entrevistou imigrantes judeus de todas as partes para o Rio e culminou com uma exposi\u00e7\u00e3o no Museu Hist\u00f3rico Nacional, na Pra\u00e7a XV, em 1989.<br><br>Por que mencionar isso \u00e9 mais significativo do que apenas uma hist\u00f3ria pessoal e curricular? Aquela foi a primeira vez que a presen\u00e7a judaica foi chancelada por uma institui\u00e7\u00e3o brasileira respons\u00e1vel pela narrativa hist\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Pela primeira vez, est\u00e1vamos sendo apresentados como comunidade num cen\u00e1rio cultural de relev\u00e2ncia nacional.<br><br>Hoje, as Damas Israelitas nos seus 100 anos de funda\u00e7\u00e3o d\u00e3o mais um passo na dire\u00e7\u00e3o de inserir nossa hist\u00f3ria como comunidade imigrante e diversa na nossa Cidade, no nosso Pa\u00eds.<br><br>A sequ\u00eancia dos fatos hist\u00f3ricos da funda\u00e7\u00e3o do Froien Farain \u00e9 conhecida. J\u00e1 foram publicados livros e artigos sobre essa hist\u00f3ria primorosa de mulheres imigrantes, hoje brasileiras, empreendedoras. Hist\u00f3ria gera compreens\u00e3o de fatos, cr\u00edtica de fatos ou rela\u00e7\u00e3o de fatos. Agora as Damas d\u00e3o uma dimens\u00e3o maior ao seu trabalho, elas d\u00e3o a dimens\u00e3o da Mem\u00f3ria. A Mem\u00f3ria gera comportamento, perspectiva e identidade.<br><br>O \u00caxodo do Egito \u00e9 um \u00f3timo exemplo disso. Se fosse somente um relato hist\u00f3rico, bastaria que o l\u00eassemos uma vez e o assunto se encerraria ali. Mas para a identidade do povo judeu, ele foi um epis\u00f3dio fundamental. Assim, mesmo que n\u00e3o tenha havido o \u00caxodo do Egito como o descrevemos, mesmo que n\u00e3o tenha acontecido a travessia do Mar Vermelho como a narramos, mesmo que a hist\u00f3ria e a arqueologia encontrem outro caminho para os fatos, os judeus do ano 670 aEC na S\u00edria, do ano zero em Israel, do ano 650 na Espanha, na Fran\u00e7a medieval em 1280, em 1924 na Pol\u00f4nia, ou neste ano de 2024 na Austr\u00e1lia \u2014 judeus re\u00fanem-se para o Seder de Pessach e renovam seu compromisso, condensando sua identidade e dando perspectiva para o coletivo.<br><br>Isso \u00e9 o que as Damas fazem toda vez que se re\u00fanem \u00e0s ter\u00e7as-feiras na sede da rua Afonso Pena na Tijuca, ou quando editam uma publica\u00e7\u00e3o, quando realizam um evento, quando incorporam o papel de \u201cDamas Israelitas\u201d. Voc\u00eas, Damas, transcendem sua exist\u00eancia individual. Voc\u00eas d\u00e3o a essa comunidade um valor transcendental.<br><br>As nossas Damas no Rio comemoram 100 anos de hist\u00f3ria, bem como pelo menos alguns mil\u00eanios de Mem\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descrever o transcurso dos acontecimentos do povo israelita sem a presen\u00e7a feminina. \u00c9 imposs\u00edvel! Elas sempre estiveram no centro do palco dos acontecimentos, nunca como coadjuvantes. E tamb\u00e9m na na\u00e7\u00e3o israelense. N\u00e3o s\u00f3 o Israel hist\u00f3rico, mas tamb\u00e9m o moderno Estado de Israel teve mulheres em posi\u00e7\u00f5es e momentos chave de decis\u00e3o, confronta\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a. Na nossa publica\u00e7\u00e3o, as autoras Jeanette Bierig Erlich e Monique Sochaczewski nos apresentam algumas delas.<br><br>Diferente de outros povos com que coabitamos nos \u00faltimos mil\u00eanios, o povo israelita tem uma postura particular perante nossos correligion\u00e1rios em estado de vulnerabilidade \u2013 hoje como h\u00e1 3, 4 mil\u00eanios. A justi\u00e7a que gera solidariedade entre judeus n\u00e3o passa pela vontade ou interesse ou disposi\u00e7\u00e3o de cada um, ela \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o. E das mais importantes: Tsedak\u00e1. A Tsedak\u00e1 nos aproxima do Deus \u00danico e Abstrato. A Tsedak\u00e1 \u00e9 um instrumento com o qual somos instru\u00eddos a reparar o mundo: Tikun Olam. Entender que as Damas s\u00e3o t\u00e3o religiosas em sua ess\u00eancia como aqueles que oram e cumprem mitsvot foi a miss\u00e3o de nossos autores Raul Cesar Gottlieb e Bia Bach.<br><br>E a alma do neg\u00f3cio? S\u00f3 poder\u00edamos ter acesso \u00e0 alma desse empreendimento t\u00e3o bem-sucedido pelas viv\u00eancias e palavras das mulheres que colocam a m\u00e3o na massa, que s\u00e3o verbo e ato dessa institui\u00e7\u00e3o, que se entregam abnegadamente ao bem-estar alheio. Na publica\u00e7\u00e3o, temos o privil\u00e9gio de conhecer o trabalho real e emocionante das Damas com os relatos de Rosa Lerner z\u2019l e de Telma Herszenhaut Kawa.<br><br>O cen\u00e1rio dos acontecimentos, primordiais para entendermos o contexto de atua\u00e7\u00e3o das Damas naquela comunidade incipiente no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, \u00e9 obra das autoras Keila Grinberg e Claudia Beatriz Heynemann. Entender o cen\u00e1rio nacional e internacional revela a habilidade dessas mulheres de navegar a hist\u00f3ria e eternizar seu trabalho.<br><br>E o amor, o amor n\u00e3o tem palavras? Tem. Esse amor \u00e0 esta causa, t\u00e3o feminina e t\u00e3o judaica, \u00e9 um amor fraternal, um sentimento t\u00e3o \u00edntimo e delicado, por\u00e9m inquebrant\u00e1vel\u2026 e vamos encontr\u00e1-lo nas palavras de Sarita Schaffel \u00e0 sua irm\u00e3.<br><br>Ter podido colaborar para esta publica\u00e7\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio que devo \u00e0s Damas e amigas Ida Frajhof Levacov e Telma Herszenhaut Kawa. Desde nosso primeiro encontro, dois anos atr\u00e1s (ou foi h\u00e1 25 anos?), caminhamos juntos para que esta revista levasse a grandeza e a beleza deste trabalho tamb\u00e9m para aqueles que n\u00e3o conhecem o Froien Farain.<br><br>Reparar o mundo, ajudar o pr\u00f3ximo, oferecer dignidade a nossos correligion\u00e1rios n\u00e3o deve ser um fato hist\u00f3rico a ser recordado em celebra\u00e7\u00f5es, mas sim constar no \u00e2mbito da nossa Mem\u00f3ria, para ser reproduzido, como m\u00ednimo, pelos pr\u00f3ximos 5 mil anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agrade\u00e7o ter sido convidado a dizer algumas palavras nessa comemora\u00e7\u00e3o t\u00e3o significativa para a comunidade judaica carioca, para a comunidade judaica brasileira, mas tamb\u00e9m e em especial para o Brasil, o pa\u00eds que acolheu meus av\u00f3s e muitos dos antepassados daqueles que est\u00e3o aqui hoje celebrando. Ou at\u00e9 mesmo aqueles que est\u00e3o aqui hoje celebrando! Na minha juventude, trabalhei como pesquisador no Projeto Heran\u00e7as e Lembran\u00e7as \u2013 imigrantes judeus no Rio de Janeiro. Durante quase quatro anos, a pesquisa entrevistou imigrantes judeus de todas as partes para o Rio e culminou com uma exposi\u00e7\u00e3o no Museu Hist\u00f3rico Nacional, na Pra\u00e7a XV, em 1989. Por que mencionar isso \u00e9 mais significativo do que apenas uma hist\u00f3ria pessoal e curricular? Aquela foi a primeira vez que a presen\u00e7a judaica foi chancelada por uma institui\u00e7\u00e3o brasileira respons\u00e1vel pela narrativa hist\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira. 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